Brasil

Dias de safári, conforto e conexão na Fazenda Caiman

O acasalamento das onças, o balé das aves, a canoa que desliza sobre um espelho e as noites sublimes revelam a força e a delicadeza do Pantanal
Dias de safári, conforto e conexão na Fazenda Caiman

Na primeira vez em que fui ao Pantanal, uma onça-parda atravessou a estrada diante do carro de safári. Sim, safári no Pantanal. O animal surgiu da mata, caminhou alguns metros pela terra vermelha e desapareceu entre as árvores. Tudo aconteceu muito rápido e nem deu para pegar a câmera. Hipnotizada, eu simplesmente não conseguia desviar os olhos daquele enquadramento. Afinal, um dos grandes felinos das Américas caminhava, com calma, muito perto de mim.

Fiquei olhando para o lugar onde o animal havia sumido e depois para os guias. Eles sorriram. Mais tarde, me explicaram que aquele encontro estava longe de ser comum. É que a onça-parda, também chamada de suçuarana, é muito mais discreta que a onça-pintada, a estrela pantaneira e um dos animais mais desejados por observadores de vida selvagem. Sendo mais tímida, é também mais difícil de ser avistada. Encontrá-la daquela maneira, em plena luz do dia, tão próxima do carro, foi sorte.

Celebrei. Não tive a foto, mas tenho a cena registrada em mim até hoje.

O ano era 2020. Depois dessa viagem, voltei outras vezes ao Pantanal. Todas as visitas me surpreenderam de formas diferentes, nenhuma igual à outra. Não só por causa do cenário e da dinâmica da fauna, que varia conforme as estações pantaneiras, mas também porque “nenhum homem entra duas vezes no mesmo rio, porque, na segunda, o homem já não é mais o mesmo, nem o rio”.

A máxima atribuída a Heráclito é viva no Pantanal. E, olha, longe de mim querer soar entendida de filosofia. Sei o básico e adoro comprová-lo por meio das sensações que encontro nas minhas andanças como viajante.

Jacaré com apenas os olhos e parte da cabeça visíveis, camuflado em um lago coberto por densa vegetação aquática verde
A cada visita, o Pantanal se apresenta de um jeito diferente e a Caiman é um dos lugares onde essa impermanência pode ser observada de perto (Pimpa Brauen/Arquivo pessoal)

Noites bem dormidas na Caiman

O Pantanal é especial. É a impermanência em estado selvagem, preservada em uma reserva que alia a grandiosidade da natureza a uma estrutura cuidadosa, como a da Caiman. Atualmente, são quase 53 mil hectares no sul de Mato Grosso do Sul. Há décadas, a Caiman reúne conservação, ecoturismo e pecuária extensiva. É também uma fazenda de gado, com serviço de hotelaria de excelência.

Essa história começou com Roberto Klabin, empresário e ambientalista que frequenta o Pantanal desde a infância. Em 1985, quando o ecoturismo ainda era praticamente inexistente por ali, ele começou a transformar a fazenda da família no que é a Caiman hoje. 

Vista aérea de um complexo de edifícios com telhados de cerâmica laranja, cercado por gramados verdes e árvores frondosas. Ao fundo, uma vasta área de floresta e pequenos corpos dágua. Uma passarela de madeira serpenteia pelo gramado, levando a um mirante circular. O céu é azul claro, com poucas nuvens, indicando um dia ensolarado
A Casa Caiman é a principal hospedagem da propriedade e o ponto de partida para as atividades de imersão na rotina pantaneira (Felipe Castellari/Divulgação)

Desta vez, fiquei na Casa Caiman, sede principal da propriedade. Além dela, há duas opções mais reservadas: a Villa Baiazinha e a Villa Cordilheira.

Ampla sala de estar com teto de madeira e vigas expostas, sofás marrons com almofadas listradas e estampas de onça, mesas de centro rústicas com livros e almofadas vermelhas no chão. Grandes janelas revelam um gramado verde, um lago e cadeiras de madeira ao ar livre. Duas colunas de pedra e uma escultura de madeira em forma de galho dividem o espaço, e uma pintura abstrata rosa decora a parede ao fundo
Nos interiores da Casa Caiman, o conforto que acolhe com poltronas de Sergio Rodrigues e fotografia de João Farkas (Felipe Castellari/Caiman/Divulgação)

A Casa Caiman, recém-reformada, tem 18 suítes com varanda. Os ambientes são muito confortáveis, com decoração que incorpora referências à cultura local e à paisagem. A gastronomia também olha para o Pantanal. Tem ingredientes locais, produtos da própria fazenda e de pequenos produtores da região. Tudo gostoso, sem muita invenção.

Quarto com cama de casal, lençóis brancos, duas almofadas de estampa de onça e manta marrom com manchas pretas. Duas mesas de cabeceira de madeira com abajures acesos e três quadros em preto e branco na parede bege. Um banco de madeira com tapete felpudo claro está aos pés da cama. Cortina branca na lateral esquerda
Aconchego e referências locais marcam a decoração da suíte master da Casa Caiman (Felipe Castellari/Divulgação)

E tem os drinks, que ganham outro sabor quando chegam à beira da piscina da sede. Dali, a vista se abre para a Baiazinha, uma lagoa permanente que atrai aves e outros animais ao longo do dia.

À esquerda, uma casa amarela com telhado de telha, cercada por árvores e gramado verde, com uma piscina e três redes coloridas. À direita, uma mesa de jantar de madeira posta com louças brancas, copos e uma jarra de água, com esculturas de onças-pintadas no centro. Ao fundo, uma parede com um grande quadro de uma onça-pintada preta e amarela, e duas colunas decorativas de palha
Da piscina aos detalhes arquitetônicos, tudo convida a desacelerar (Felipe Castellari/Caiman/Divulgação)

A academia tem a mesma vista e é bem equipada. Da esteira, dá para acompanhar a mudança da luz natural sobre a água da lagoa e apreciar as aves cruzando o céu. A sauna é outra pedida. Tudo isso completa a estadia, claro, mas é quase detalhe diante da grandeza e da riqueza natural do Pantanal. 

Esculturas de onças-pintadas em madeira, uma adulta deitada com filhotes e outra em posição de ataque, sobre uma mesa de madeira em um ambiente rústico com vista para um lago e vegetação exuberante
Detalhes na decoração da Casa Caiman em sintonia perfeita com que o destino (Pimpa Brauen/Arquivo pessoal)

A Villa Baiazinha é menor e mais reservada. São seis suítes, para até 12 hóspedes, com varandas e redes, piscina com deck e uma sala toda envidraçada, aberta para a paisagem. Mais afastada da sede, funciona de forma privativa, com carro e guias exclusivos. Os horários também ganham mais liberdade, o que faz diferença quando se está entre amigos ou em família.

Piscina retangular azul em deck de madeira, com espreguiçadeiras e toalhas listradas. Ao fundo, casas de telhado de barro, vegetação exuberante e um lago sob céu azul claro
Villa Baiazinha: piscina com deck, sala envidraçada com vista para a lagoa e muita privacidade (Felipe Castellari/Divulgação)

A novidade na Caiman é a Villa Cordilheira, recém-reformada, com capacidade para abrigar até 16 pessoas. A acomodação fica suspensa sobre a mata de cordilheira, daí o nome, e tem sete bangalôs de 70m², com varanda, piscina com borda infinita, sala de ginástica, bar e uma ampla sala de convivência. A decoração segue o estilo Caiman e teve toques da decoradora Claudia Gelpi. Guias e carros privativos atendem à villa, criando atrativos sob medida.

Ampla sala de estar com teto e paredes de madeira, dois grandes lustres esféricos com manchas escuras, sofás e poltronas de couro, estantes com livros e objetos, e grandes janelas que revelam uma área externa arborizada
Villa Cordilheira: reforma impecável combina arquitetura contemporânea, referências pantaneiras e contato próximo com a natureza (Silas Ismael/Divulgação)

Rotina Caiman

Os safáris e os passeios, como cavalgadas e remadas, acompanham o ritmo do Pantanal. Pela manhã, os carros de safári saem geralmente a partir das cinco e meia. À tarde, por volta das três.

Os horários têm uma lógica: nas primeiras horas do dia, quando a temperatura ainda é mais amena, muitos animais estão ativos. À medida que o sol sobe e o calor aperta, parte da fauna diminui o ritmo e procura áreas mais protegidas. No fim da tarde, tudo volta a se movimentar.

Um guia turístico sorridente, de chapéu de palha e camisa bege, aponta para uma árvore enquanto conversa com um grupo em uma floresta tropical
Caminhadas revelam uma dimensão mais profunda do Pantanal (Felipe Castellari/Divulgação)

O céu ainda está escuro e as estrelas acesas quando os hóspedes começam a chegar à varanda da sede. Bem cedinho, há sempre café, bolos e frutas sobre a mesa do bar – sempre algo leve, antes da primeira saída. Aos poucos, todo mundo vai chegando, ainda meio sonolento. Pouco depois, estamos no meio do Pantanal vendo o dia nascer.

O ritmo é outro por ali. Primeiro vem um canto isolado. Depois outro, mais distante. Aos poucos, as aves tomam conta da paisagem sonora. Nas árvores, elas se espreguiçam, abrem as asas para se esquentar nos primeiros raios de sol num lindo balé e começam os primeiros voos. Enquanto isso, o céu muda de cor: laranja, amarelo, dourado, azul.

É nessas horas que as escalas do Pantanal também colocam as nossas em perspectiva. Mergulhar naquele silêncio, interrompido apenas pelos sons da natureza, chega a emocionar quem vive em cidades gigantescas, como é o meu caso.

Vista do interior de um veículo 4x4 em uma estrada de terra iluminada por faróis, ao entardecer. O céu azul escuro se encontra com o horizonte laranja, com árvores escuras em silhueta. A vegetação densa e verde margeia a estrada, com postes de madeira e arame à direita. O teto de lona do veículo aparece na parte superior da imagem
Na focagem noturna, o olhar acompanha o facho de luz em meio à escuridão na procura por animais (Felipe Castellari/Divulgação)

Por volta das 10h, os carros retornam à sede e, aí sim, vem o verdadeiro café da manhã, completo e sem pressa. Depois disso, dá para dormir um pouco, ler um livro, fazer exercício com vista para a Baiazinha ou aproveitar a piscina. Nessa última viagem, essa era uma das minhas partes preferidas do dia: ficar ali, lendo, enquanto um casal de araras-azuis, numa árvore ao lado, vocalizava sem parar. De vez em quando, elas ainda davam rasantes sobre a piscina. Mais Pantanal, impossível.

Duas araras-azuis de plumagem escura e bico amarelo, empoleiradas em galhos de árvore, com folhagem verde ao fundo e luz solar filtrada
Ralismo mágico: um casal de araras-azuis visita a área da piscina (Pimpa Brauen/Arquivo pessoal)

O almoço começa a ser servido ao meio-dia e, aos poucos, os hóspedes vão se encontrando à mesa. É uma hora gostosa de bater papo, trocar histórias e contar o que cada um viu naquela manhã. Quem encontrou uma cobra, quem viu um tamanduá, quem voltou encantado com uma arara. Tudo sem pressa. Afinal, a próxima saída é só às três da tarde.

Os Big Five do Pantanal

Se no continente africano os Big Five são leão, leopardo, elefante, rinoceronte e búfalo, o Pantanal também ganhou sua própria versão da expressão. Aqui, os cinco animais mais cobiçados por observadores são a onça-pintada, o tamanduá-bandeira, a anta, o cervo-do-pantanal e a capivara.

Tamanduá-bandeira de perfil, com pelagem escura e faixa diagonal branca, caminhando sobre gramado verde e seco, com vegetação ao fundo sob luz dourada do entardecer
Com o focinho comprido e a cauda volumosa, o tamanduá-bandeira faz parte do Big Five pantaneiro (Felipe Castellari/Divulgação)

E ainda há os lindos veados-campeiros, as queixadas, as onças-pardas, os jacarés, as aves, os peixes, as raposas-do-campo, os macacos, as borboletas.

Filhote de veado marrom-claro com pintas brancas correndo e saltando sobre a grama verde, com as patas dianteiras e traseiras no ar
Elegante e ágil, o veado-campeiro costuma ser encontrado em áreas abertas (Keith Ladzinski/Reprodução)

E tem a flora: palmeiras de acuri e carandá, os cambarás e as lindas piúvas, que podem chegar a 20 metros de altura. Na seca, muitas perdem as folhas e se cobrem de flores em tons de rosa e roxo. De repente, no meio de tanto verde, a paisagem ganha enormes manchas de cor.

Vista aérea de um campo verde com várias árvores floridas em tons de rosa e branco, projetando longas sombras escuras sobre a grama. O sol ilumina o cenário, destacando a beleza das flores e a textura do terreno.
As piúvas floridas criam grandes manchas de cor no Pantanal durante o período da seca (Daniel Junqueira/Reprodução)

Nunca se sabe quais animais vão aparecer pelo caminho. É justamente essa imprevisibilidade que torna cada saída diferente. Os tuiuiús, assim como os jacarés, são presenças corriqueiras e, ainda assim, surpreendentes. 

Os jacarés, mesmo que onipresentes, sempre me impactam. Por vezes, estão completamente imóveis, aquecendo-se ao sol. Em outras, apenas os olhos aparecem sobre a superfície da água. Há também os que ficam de boca bem aberta, uma das maneiras de regular a temperatura do corpo. Parecem ameaçadores, mas estão apenas tentando se refrescar.

Jacaré-do-pantanal com pele escura e escamas visíveis, parcialmente submerso em água azul-clara, com a cabeça erguida e o corpo refletido na superfície. A margem de terra escura com vegetação rasteira aparece no canto inferior direito
Jacaré-do-Pantanal descansa às margens de uma baía, entre a vegetação e as águas que formam um dos cenários mais emblemáticos do bioma (Keith Ladzinski/Reprodução)

A quantidade de araras-azuis impressiona, especialmente quando se conhece a história recente da espécie. O Projeto Arara Azul, criado em 1990 por iniciativa da bióloga Neiva Guedes, tornou-se referência no estudo, monitoramento e conservação da arara-azul-grande no Pantanal. Na Caiman, somos nós que entramos no território dos animais e seguimos o ritmo deles.

À esquerda, um homem com capacete e equipamento de escalada desce por uma corda em uma árvore alta. À direita, duas araras-azuis pousam sobre um ninho de madeira fixado ao tronco de outra árvore
Projeto Arara-Azul monitora ninhos naturais e também instala estruturas artificiais para ajudar na reprodução da espécie em áreas onde faltam cavidades adequadas (Felipe Castellari/Divulgação)

O acasalamento das onças

As onças, acompanhadas pelo projeto de preservação Onçafari, passam apenas por um processo de habituação aos veículos, para que deixem de enxergá-los como uma ameaça. Durante a estadia, uma das saídas é feita com a equipe do projeto, que acompanha algumas dessas onças há anos. Muitas têm nome, filhotes conhecidos e uma história que os pesquisadores sabem contar.

Uma onça-pintada adulta e um filhote descansam sob a sombra de folhagens verdes. A onça maior, com coleira preta, olha para a direita, enquanto o filhote está aninhado ao seu lado, com a cabeça baixa. O ambiente é de mata densa, com luz solar filtrada pelas folhas
Acompanhada pelo filhote, a onça-pintada revela um dos lados mais delicados da vida selvagem no Pantanal (Pimpa Brauen/Arquivo pessoal)

Algumas usam radiocolares, que ajudam a acompanhar seus deslocamentos pelo Pantanal. Durante o safári, começamos também a reconhecer essas onças e suas relações. Essa convivência nem sempre é simples. As onças eventualmente predam o gado da própria fazenda, um dos desafios de manter pecuária e vida selvagem no mesmo território.

Em um dos dias, encontramos uma fêmea conhecida pelos pesquisadores copulando repetidamente com um macho, apesar de não estar no cio. No dia seguinte, lá estava ela novamente, desta vez com outro macho, e o comportamento se repetia. O filhote permanecia escondido, distante dali.

Segundo os pesquisadores, essa estratégia pode manter os machos ocupados e afastados da cria. Como não eram os pais, poderiam matá-la caso a encontrassem. Fiquei fascinada ao descobrir o que havia por trás de uma cena que, para mim, parecia apenas um acasalamento.

Uma onça-pintada adulta, com pelagem amarela e rosetas pretas, sentada sobre um filhote menor, também pintado, em meio à vegetação densa de uma floresta. A onça maior olha para a esquerda, e o filhote está parcialmente visível, com a cabeça virada para a direita. O chão é de terra com folhas secas e algumas plantas verdes.
Na vida selvagem, até um encontro de acasalamento pode esconder uma estratégia de sobrevivência (Pimpa Brauen/Arquivo pessoal)
AS QUATRO ESTAÇÕES PANTANEIRAS

Não se trata de verão, primavera, outono e inverno, mas de quatro estações determinadas pelo ciclo das águas. Em geral, a cheia vai de dezembro a março; a vazante, de abril a junho; a seca, de julho a outubro; e o período das chuvas, de outubro a dezembro.

CHEIA

Com a elevação das águas, rios transbordam e extensas áreas da planície ficam alagadas. A paisagem se transforma, e aves aquáticas, como tuiuiús, cabeças-secas, patos, marrecos e garças, ganham ainda mais presença.

VAZANTE

As águas começam a baixar lentamente, e áreas antes inundadas reaparecem. Com a retração da água, mamíferos que haviam se dispersado durante a cheia voltam a ocupar diferentes áreas da planície. Queixadas, catetos, cervos-do-pantanal e macacos podem voltar a ser observados com maior frequência.

SECA

Rios e lagoas permanentes retornam aos seus limites naturais, e a concentração de animais em torno das fontes de água favorece a observação da vida selvagem. Tamanduás e quatis tornam-se presenças frequentes, e as onças podem ser avistadas com maior facilidade. É também o período associado à floração das piúvas, os ipês-rosas que mudam a cor da paisagem.

CHUVAS

É o período das primeiras chuvas e da retomada do verde. Grupos de aves cruzam o céu, e muitas espécies estão em período reprodutivo. Já a avistagem de mamíferos é mais rara.

No Pantanal, faça como os pantaneiros

Além do carro, é possível conhecer a região cavalgando. Uma das tardes mais bonitas dessa minha última estadia começou em cima de um cavalo pantaneiro.

Um grande ipê com folhagem verde exuberante se destaca no centro de um campo de grama alta. Quatro cavalos, de pelagens marrom, preta e branca, pastam sob a sombra da árvore. Ao fundo, uma floresta densa com palmeiras e um céu azul claro completam a paisagem.
Os cavalos também fazem parte da rotina pantaneira e são uma das maneiras de explorar a paisagem da Caiman (Caiman/Divulgação)

Junto aos guias, cruzei pontes de madeira, passei por alamedas de mangueiras antigas e por campos em que o gado dividia espaço com garças e cervos. Montada, eu enxergava o Pantanal de outro jeito. Os sons pareciam mais próximos e o cheiro do mato mais intenso.

À esquerda, um cavaleiro de chapéu de palha e camisa clara monta um cavalo escuro em uma estrada de terra ladeada por um rio e vegetação. À direita, um tuiuiú com cabeça preta e pescoço vermelho está em um grande ninho de galhos secos no alto de uma árvore frondosa, sob céu azul
A cavalo, os sons parecem mais próximos e a paisagem ganha outra perspectiva (Pimpa Brauen/Arquivo pessoal)

Chegamos a uma clareira. Por lá, encontrei redes coloridas à sombra das árvores e grandes almofadas espalhadas pelo chão. Um cenário caprichado e acolhedor. Em cima de uma pequena mesa de madeira havia tereré, servido na guampa, castanhas de baru, frutas e farofa com carne-seca, sabores ligados à cultura e à rotina do campo pantaneiro. Que momento!

Duas cenas: à esquerda, um piquenique com esteira e almofadas coloridas sob redes de descanso; à direita, um homem de chapéu e camisa Caiman manuseia uma cuia de tereré de couro
Uma pausa para relaxar e provar alguns dos sabores pantaneiros (Pimpa Brauen/Arquivo pessoal)

Depois de comer, me deitei em uma rede. Dali, eu via apenas as copas das árvores recortando o céu e a luz do sol atravessando as folhas.

Por terra ou por água

A Caiman tem lagoas e baías, parte de sua área é banhada pelo córrego Agachi e a propriedade está na região entre os rios Miranda e Aquidauana.  Em uma tarde, embarquei em uma canoa canadense. A água da baía, um verdadeiro espelho, refletia o céu enquanto eu remava devagar, quase sem fazer barulho.

Vista aérea de dois caiaques brancos com pessoas remando em um rio azul escuro, cercado por vegetação verde exuberante e densa em um dia ensolarado
Canoa canadense: passeio segue pelas águas tranquilas, em ritmo lento e contemplativo (Felipe Castellari/Divulgação)

Passamos por baixo da Ponte do Paizinho, de madeira, um dos marcos da propriedade. O passeio é contemplativo, dura pouco mais de uma hora e não é uma aventura, apesar dos jacarés. Eles estavam “de boa”: apareciam primeiro como pequenos pontos escuros na superfície; depois, eu via apenas os olhos me observando à distância. Enquanto isso, o sol descia lentamente.

Duas fotos lado a lado. À esquerda, a proa de uma canoa em um rio calmo, refletindo uma ponte de madeira rústica e o céu azul. À direita, um pôr do sol alaranjado sobre a linha do horizonte, com o sol parcialmente escondido por árvores escuras e o rio refletindo as cores do céu
A água espelhada da baía transforma o passeio de canoano pôr-do-sol em um momento sublime (Pimpa Brauen/Arquivo pessoal)

O tom dourado do céu transformava-se em laranja. A cor tomava a água, subia pelas árvores e alcançava as nuvens. Quando o sol tocou a linha do horizonte, parecia se dissolver na água.

Pôr do sol com céu em tons de laranja e amarelo, refletindo na água calma de um rio. A silhueta escura de uma floresta densa aparece no horizonte, com algumas árvores mais altas se destacando. A atmosfera é serena e contemplativa
No fim do dia, céu e água se fundem em um mesmo tom alaranjado (Caiman/Arquivo pessoal)

Voltei devagar até a margem e encontrei um pequeno piquenique montado ao ar livre. Havia lanternas acesas, taças sobre a mesa e uma garrafa de champanhe mergulhada no gelo.

Na volta para a sede, já era noite. Seguíamos devagar quando o facho das lanternas encontrou dois olhos brilhando na escuridão. Só então surgiu a silhueta de uma onça-pintada caminhando em direção à margem da baía. Ela se aproximou lentamente da água, abaixou a cabeça e começou a beber delicadamente.

Ficamos em silêncio, só nós, a onça e a noite. Ela ainda ergueu a cabeça e nos lançou um breve olhar antes de desaparecer na escuridão – tão discretamente quanto surgiu, voltou a pertencer à noite.

Sob as estrelas

O céu pantaneiro é deslumbrante a qualquer hora. Na escuridão total, as estrelas ganham outra intensidade. Nem precisa de muita sorte para ver uma estrela cadente e emendar um pedido.

Todas as noites eram gostosas. Uma, no entanto, foi mais que especial. O jantar aconteceu no galpão dos peões, entre selas, estribos e outros objetos da lida diária. Uma única mesa comprida reunia todos os hóspedes. Do lado de fora, a fogueira ardia sob um céu coalhado de estrelas, enquanto ao fundo, músicos dedilhavam violas pantaneiras.

A comida saía de um grande fogão a lenha, e as carnes assavam lentamente sobre as brasas. Caldo de piranha fumegante, peixes de rio e receitas inspiradas na cozinha das fazendas locais compunham o cardápio. Era um jantar que tinha menos a ver com cerimônia do que com a própria essência da fazenda: fogo, música, comida e conversa noite adentro.

Homem de chapéu de palha e camisa escura, com barba, segura um espeto de linguiça em ambiente escuro, iluminado por luz quente. Ao fundo, uma pilha de toras de madeira. Ele olha para cima, concentrado
O churrasco reúne os hóspedes em torno da cozinha e das tradições pantaneiras (Felipe Castellari/Divulgação)

Sentada ali, entre o aroma da lenha queimando, o som da viola e as histórias que atravessavam a mesa, eu conhecia mais uma face do Pantanal: a dos peões e das comitivas, das receitas guardadas por gerações e de quem aprendeu a viver no compasso das águas e das estações.

Em cada passagem pelo Pantanal, alguma coisa parece se rearranjar. Talvez seja por isso que volto mais uma vez a Heráclito: ninguém entra duas vezes no mesmo rio. Já estive ali na seca, na vazante e na cheia e, a cada vez, encontrei outra paisagem, outra luz, outros animais – e, de certo modo, outra viajante em mim.

Rancho rústico com telhado de madeira, selas penduradas, mesas postas e bancos. Ao fundo, o sol se põe atrás de uma árvore grande, iluminando três homens com aventais e cavalos, preparando um evento ao ar livre
Entre selas, estribos e a lenha que queima, a cultura pantaneira enlaça e perdura (Felipe Castellari/Divulgação)
BIODIVERSIDADE PROTEGIDA

INSTITUTO ARARA AZUL

No final dos anos 1980, a espécie sofria com o tráfico de animais e a destruição de seu habitat. Foi quando a bióloga Neiva Guedes começou a estudar as araras no Pantanal. Em 1990, nasceu o Projeto Arara Azul.

Os pesquisadores acompanham as aves, estudam seu comportamento, monitoram a reprodução e cuidam dos ninhos. Como nem sempre existem cavidades naturais adequadas para as araras se reproduzirem, o projeto também instala ninhos artificiais. Hoje são mais de mil ninhos, naturais e artificiais, cadastrados e monitorados.

A relação com a Caiman vem de longe. O projeto desenvolve trabalhos por lá desde os anos 1990, e os hóspedes podem conhecer um pouco dessa história durante a estadia.

ONÇAFARI

O projeto nasceu em 2011 e fez da onça-pintada uma aliada da conservação por meio do ecoturismo. Uma das bases do trabalho é a habituação das onças à presença dos carros de safári. Isso não significa domesticação. Elas continuam completamente selvagens, não recebem comida, não são treinadas e circulam por onde querem.

Algumas onças são acompanhadas pelos pesquisadores durante anos. Elas têm nome, histórico conhecido e informações sobre território, reprodução, filhotes e comportamento. O Onçafari atua com pesquisa científica, monitoramento, educação ambiental, proteção de habitats e reintrodução de espécies.

E não para por aí. A Caiman também apoia projetos ligados à preservação de tamanduás, tatus e preguiças. E tem ainda a Reserva Particular do Patrimônio Natural Dona Aracy, que corresponde a mais de um décimo do território da Caiman, mas por ora não recebe visitantes. Sua área foi escolhida com auxílio de pesquisadores da USP e reúne diferentes habitats protegidos, entre cerradões, campinas, carandazais, cerrados baixos, vazantes, corixos, capões e cordilheiras.

Serviço

Casa Caiman – Diárias por suíte para até 2 pessoas a partir de R$ 6.821*.

Villa Cordilheira – Diária dos 7 bangalôs (até 16 pessoas) a partir de R$ 70 mil*.

Villa Baiazinha – Diárias das 6 suítes (até 12 pessoas) a partir de R$ 41.400*.

*Diárias incluem todas as refeições, safáris, caminhadas e focagens noturnas (apenas a Villa Cordilheira inclui bebida alcoólica). Saiba mais.

Como chegar

O aeroporto mais próximo da Caiman é o de Campo Grande (MS). De lá, são 210km pela rodovia BR 262 mais 36km de estrada de terra. A fazenda pode organizar o transfer, mas é possível chegar de carro alugado, ainda que não tenha serventia durante a estadia. A fazenda também tem pista de pouso.

Leia tudo sobre o Pantanal

Conteúdo adaptado de Viagem e Turismo (Abril). Ver publicação original completa →
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