Ainda que eu viva há mais de uma década em Nova York e esteja perfeitamente adaptada ao ritmo frenético e a uma certa impessoalidade nas relações, ainda me surpreendo e me encanto quando viajo por outros cantos dos Estados Unidos e descubro como o país pode ser diverso e, sobretudo, caloroso.
Em uma viagem recente pelo estado da Geórgia, encontrei a hospitalidade, o ritmo mais desacelerado e o charme das cidades menores. Atlanta, a capital, tem tudo isso, mas acrescenta uma dose generosa de energia urbana, com uma cena cultural, gastronômica e artística que a coloca entre as metrópoles mais interessantes que conheci no país.
Não é por acaso que Atlanta ganhou o apelido de “The City in a Forest” (“A Cidade na Floresta”). Cerca de 48% da área urbana é coberta por árvores, presentes entre ruas, parques e bairros residenciais. Em vez de ceder completamente espaço ao crescimento da cidade, muitas áreas verdes seguem integradas à paisagem. O resultado é uma metrópole de horizonte verde, onde a natureza está muito mais presente do que eu esperava.
Foi justamente essa combinação de história, cultura pop, arte urbana, áreas verdes e uma cena gastronômica que me conquistou. Saí de Atlanta com a sensação de ter descoberto uma cidade muito mais interessante e diversa do que imaginava. E, de quebra, completamente apaixonada por ela.
Curiosidade:Os locais pronunciam o nome com os dois T’s mudos, soando algo próximo de “Élana” e em algumas horas na cidade você também vai se sentir super familiar com essa pronúncia.
Ponto de partida: Downtown
Para começar a explorar a cidade, o ponto de partida ideal é o Centennial Olympic Park, construído para as Olimpíadas de 1996 e que reúne nas proximidades algumas das maiores atrações turísticas da cidade, como o Georgia Aquarium, World of Coca-Cola, National Center for Civil and Human Rights e o Martin Luther King Jr. National Historical Park.
O Georgia Aquarium é uma verdadeira imersão no mundo subaquático. A galeria Ocean Voyager é uma das maiores exposições aquáticas do mundo, com um túnel de acrílico transparente de 30 metros de comprimento e uma enorme janela de visualização por onde pude observar tubarões-baleia, raias-manta, garoupas-gigantes e milhares de outros peixes.
A exposição Sharks! Predators of the Deep é uma das maiores e mais dinâmicas mostras sobre tubarões na América do Norte e reúne alguns dos predadores mais conhecidos dos oceanos. Foi hipnotizante. Eu simplesmente não queria mais sair de lá.
Logo ao lado fica o World of Coca-Cola. Quem é fã vai enlouquecer com um mergulho na história da bebida mais famosa do mundo, nascida em Atlanta. Na exposição interativa The Studios, os visitantes exploram a influência da Coca-Cola na arte, música, moda, esportes e entretenimento. É possível até soltar a imaginação e criar novas versões da garrafa.
A área The Loft abriga uma coleção de quase 200 peças históricas que representam mais de 135 anos de memórias da Coca-Cola e itens de mais de 30 países diferentes.
Mas um dos pontos altos é a sala de degustação Taste It!, onde os visitantes podem provar mais de 100 bebidas da família Coke de diversas regiões do mundo, em sabores que vão do doce ao picante, passando até por toques salgados. Entre elas estão um refrigerante cremoso de framboesa lançado na África em 1955, uma Sprite sabor pepino disponível na Romênia e um refrigerante da Tanzânia, feito de gengibre, planta tradicional no país.
Confesso: eu não bebia refrigerante desde 1995, sem nunca cair em tentação… até chegar ao World of Coca-Cola. Estar ali, no lugar onde essa bebida foi inventada, me permitiu uma licença poética: fiz um brinde e bebi um copo, em total clima de nostalgia.
Do outro lado da praça fica o National Center for Civil and Human Rights (Centro Nacional de Direitos Civis e Humanos), um museu emocionante e interativo que conecta a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos com os movimentos globais de direitos humanos. É uma visita indispensável, já que Atlanta foi o epicentro do Movimento dos Direitos Civis nos anos 1960.
Em cada sala, vemos diversos registros dos acontecimentos que marcaram a história, especialmente a trajetória da população negra. Uma das experiências mais marcantes foi a réplica de um bar, onde sentamos e colocamos um fone de ouvido. Ali, ouvimos insultos como se fôssemos um cliente negro sendo ofendido por pessoas brancas. A experiência, além de emocionante, é quase revoltante, ainda mais para afrodescendentes como eu.
Fui às lágrimas em vários momentos, diante de tudo o que vi ali. E então entendi o porquê de tantas caixas de lenços de papel espalhadas por todo o museu. É o tipo de lugar que precisa ser frequentado para que histórias como essa não se repitam.
Nenhum roteiro está completo sem uma visita ao Martin Luther King Jr. National Historical Park, localizado no histórico bairro de Sweet Auburn. Lá, você pode visitar a casa onde o líder religioso nasceu, a igreja Batista Ebenezer, onde ele e seu pai foram pastores, e o memorial onde repousam seus restos mortais.
Cabbagetown, história e street art
Cabbagetown é um bairro histórico de Atlanta que surgiu em 1881 ao redor de uma fábrica têxtil, a Fulton Bag and Cotton Mill, para abrigar seus funcionários. Após o fechamento da fábrica, em 1977, o bairro passou por um período de declínio, mas, na década seguinte, um grupo de artistas comandou uma revitalização, transformando a região em uma área moderna e charmosa, repleta de restaurantes aconchegantes que servem hambúrgueres, hot dogs e também especialidades do Sul.
A origem do nome curioso, Cabbagetown (em português, Cidade do Repolho), tem várias versões. Uma delas diz que, por volta de 1920, vendedores de hortifrúti na porta da fábrica Fulton Bag and Cotton Mill passaram a comercializar apenas repolhos, seu produto mais popular. Outra sugere que os moradores pobres que trabalhavam na fábrica cultivavam repolhos nas hortas na frente de suas casas e era possível sentir o cheiro de repolho cozido vindo de suas cozinhas.
Pessoas de fora do bairro usavam o nome “Cabbagetown” com tom de deboche, mas ele logo foi adotado pelos locais. E há ainda uma terceira explicação: um trem que transportava uma carga de repolhos teria descarrilado perto da fábrica e os moradores pobres os recolheram rapidamente, utilizando-os em suas refeições. Não se sabe qual é a mais confiável, mas vale pela curiosidade.
Hoje, as coloridas casas de moinho do século 19 dividem espaço com os painéis que cobrem o Krog Street Tunnel. É uma verdadeira galeria de street art dentro de um túnel espremido entre os trilhos do trem. Foi para conhecer essas obras que participei de um interessantíssimo tour a pé promovido pelo Unexpected Atlanta por Cabbagetown. O passeio explora a combinação de história e street art espalhada por parques, muros, túneis e passarelas, com destaque para o trabalho de artistas independentes.
BeltLine, o cinturão verde da cidade
O Atlanta Beltline é uma antiga linha férrea desativada que foi transformada em um parque linear repleto de murais de arte urbana, ciclovias e trilhas para pedestres. Seu circuito de trilhas ao ar livre tem aproximadamente 35 km e contorna a cidade, conectando 45 bairros e ajudando a explicar por que Atlanta é conhecida como “A Cidade na Floresta”.
O Atlanta Beltline é dividido em oito trilhas principais: Northwest, Northside, Northeast, Eastside, Southeast, Southside, Southwest e Westside. Há também três trilhas de conexão: West End Trail, Southwest Connector Trail e Westside Beltline Connector. É uma maneira interessante de explorar diferentes bairros por meio de caminhos que passam por parques e áreas verdes.
Ao caminhar pelo Atlanta Beltline, é possível ver pessoas a pé, de patins, de patinete e de bicicleta (aliás, fique atento para não ser atingido por uma delas). O melhor é seguir sem pressa, descobrindo restaurantes, cervejarias, lojinhas locais e obras de arte públicas ao longo do percurso. Dê uma paradinha para ver uma feira livre, tomar um café ou um drink em um dos muitos bares da região.
E a arte é parte importante dessa história. Quem percorre o Beltline pode admirar o Atlanta Beltline Art, considerada a maior exposição temporária de arte pública e galeria linear dos EUA, com murais coloridos, esculturas e fotografias de artistas locais. Se der sorte, pode até ver a produção de uma de suas obras ao vivo, como aconteceu comigo.
Atlanta History Center, a casa do ciclorama
O Atlanta History Center é um complexo singular que abriga o Atlanta History Museum e a Swan House. Por lá acontecem exposições permanentes e temporárias que contam a história da cidade, suas origens como polo de transportes e os impactos dos Jogos Olímpicos do Centenário de 1996.
Mas o ponto alto da visita é um ciclorama, uma pintura panorâmica que se estende por 360 graus ao redor de uma parede côncava. Em exposição desde 2019, o Cyclorama: The Big Picture representa a Batalha de Atlanta, um dos principais confrontos da Guerra Civil Americana, travado em 1864, quando as tropas da União avançaram sobre a cidade para derrotar as forças confederadas e tomar um importante centro de transporte e abastecimento.
O ciclorama foi totalmente pintado à mão e entregue em 1866, com cerca de 15 metros de altura, comprimento superior ao de um campo de futebol americano e peso de aproximadamente 4.500 quilos. A pintura é complementada por bonecos e outros elementos que ajudam a construir a narrativa da batalha. Para ver a obra, subi uma escada rolante até um mezanino, onde é possível caminhar e observar a pintura de diferentes ângulos.
A obra é um dos dois únicos cicloramas nos Estados Unidos – o outro retrata a Batalha de Gettysburg e fica na Pensilvânia -, o que faz de Atlanta a casa de uma peça histórica singular. A pintura é mesmo de cair o queixo e hoje ganha novos contornos por ser uma espécie de precursora da realidade virtual.
Sabores do Sul: da tradição à alta gastronomia
Um dos pontos que mais me conquistou em Atlanta foi a diversidade e a qualidade da gastronomia. De restaurantes tradicionais a estrelados, cada refeição foi um deleite.
Um bom lugar para passear e comer é o Ponce City Market, um antigo prédio da década de 1920 que já foi sede da Sears, passou por revitalização e hoje abriga um mercado gastronômico espetacular, lojas independentes e um parque de diversões vintage no terraço, com vista panorâmica da cidade. No food hall, chefs e empreendedores capricham na oferta gastronômica.
Para curtir um clima muito charmoso, a pedida é tomar um café da manhã no Café Intermezzo, que funciona como uma autêntica cafeteria europeia do século 19. Só de doces são mais de 60 opções, além de bebidas quentes, frias e alcoólicas. Funciona desde o café da manhã até tarde da noite. É o tipo de lugar que faz você se sentir em Viena.
Se for passear em Cabbagetown, vale planejar uma parada no Breaker Breaker, que tem uma vibe super descontraída, típica dos restaurantes nos calçadões à beira-mar. O cardápio tem tudo a ver, com clássicos de frutos do mar como porções de peixe frito e sanduíches poboy de camarão. No pátio espaçoso, dá para aproveitar o clima agradável com drinques frozen e refeições casuais ao ar livre. Aproveite para fazer a digestão caminhando pelo BeltLine, que fica bem pertinho.
Um dos pontos altos da viagem foi o jantar no Yebo Beach Haus, localizado em Buckhead, bairro elegante conhecido como a “Beverly Hills do Leste”, com shopping centers de luxo, restaurantes sofisticados e lindas casas. O cardápio é surpreendente, com uma fusão bem-sucedida de culinária praiana com influências sul-africanas, acompanhada por vinhos também da África do Sul, que harmonizam muito bem com os pratos. O ambiente é lindo e, para mim, foi um dos programas imperdíveis da viagem.
Curte natureza? Marque um brunch no The Chastain, um bistrô de bairro sofisticado que oferece uma culinária “farm-to-table”. Localizado em frente ao Chastain Park, o restaurante foi reconhecido com a Estrela Verde Michelin por seu compromisso com a responsabilidade ambiental, e muitos dos ingredientes usados são colhidos da própria horta. É uma graça de lugar.
Um bom complemento a um passeio no Atlanta BeltLine é um almoço ou jantar no descolado Delbar Inman Park (também com outras duas unidades na cidade). Não se deixe enganar pelo estilo descontraído: ali, a culinária do Oriente Médio é levada a sério, tanto que o restaurante é reconhecido pelo Guia Michelin. Fundado pelo chef Fares Kargar, oferece sabores autênticos da Pérsia e do Oriente Médio com um toque moderno. Os coquetéis também são ótimos.
Como circular
Em uma cidade que tem o BeltLine como um de seus projetos mais importantes, caminhar é um convite irrecusável. Dependendo de onde estiver hospedado, você pode chegar a diversos lugares do seu roteiro apenas seguindo a trilha verde. No meu caso, que estava hospedada no bairro histórico Old Fourth Ward, foi bastante conveniente. Se não estiver disposto a caminhadas ou quiser ir a pontos mais distantes, Atlanta conta também com ônibus, metrô e trem.
Uma opção charmosa é o Atlanta Streetcar, um bonde elétrico que circula em um circuito no centro da cidade (Downtown), conectando pontos como o Centennial Olympic Park, a Martin Luther King Jr. National Historical Park e o distrito de Sweet Auburn.
Como em todas as grandes cidades, você também pode contar com os carros de aplicativos. E ainda pode adicionar uma toque extra à sua corrida ao solicitar um Waymo (via Uber), que opera uma frota de carros elétricos autônomos.
Onde ficar
A minha estada foi no agradável Forth Hotel, um dos empreendimentos mais recentes da cidade em Old Fourth Ward. O endereço é moderno e sofisticado, com tudo o que a gente precisa para ser feliz: uma enorme academia de cerca de 1.400 m², uma bela piscina externa estilo resort e um amplo spa. Fica bem localizado para explorar a cidade a pé, pertinho do Atlanta Beltline, do Ponce Market e de outros pontos de interesse.
No quesito gastronomia, o hotel abriga quatro conceitos distintos: Il Premio (steakhouse), Elektra (ao lado da piscina, com vista para o horizonte e pratos de inspiração mediterrânea), Bar Premio (para café da manhã, coquetéis e refeições ao longo do dia) e Moonlight, para mim o ponto alto – literalmente. O bar fica no rooftop do hotel e foi onde fiz questão de encerrar todas as noites da estada. O ambiente, inspirado nos anos 1970, tem DJs, coquetéis criativos e belas vistas de Atlanta. E o melhor: quando bate o sono, basta pegar o elevador até o quarto. Vá de dia, ao entardecer e à noite para garantir as melhores fotos. Reserve aqui.
Para mergulhar ainda mais na cultura da Geórgia, combine sua viagem com Macon e Savannah em um roteiro que pode ser feito de carro.
Como chegar
As únicas rotas diretas do Brasil para Atlanta (ATL) partem de São Paulo (GRU) e Rio de Janeiro (GIG), em voos operados pela Delta Airlines. Saindo de outras cidades brasileiras, normalmente há conexão em cidades como Miami, Lima, Santiago, Panamá ou Houston.
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